Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Uma Traição Fatal (Haywire) - Steven Soderbergh em baixo de forma



Não devias pensar nela como uma mulher - diz a dada altura uma das personagens do filme. E de facto assim o é, não há homem que vença Mallory Kane, que tal como Obélix, parece ter caído no caldeirão onde uma fórmula mágica de força bruta estava a ser preparada. Máquina de espancar e matar, esta espia/mercenária passa o filme todo a distribuir murros, pontapés e golpes engenhosos (e a levá-los também). 

E por que motivo está esta mulher em fúria? O membro da agência que lhe atribui as missões, Kenneth (que se conclui que terá sido seu marido ou amante; interpretado por Ewan McGregor), traiu-a durante uma missão e deixou-a por sua conta e risco a tentar livrar-se de quem a queria matar. No caminho Mallory ainda consegue arranjar tempo para "tirar um gostinho" do atraente colega Aaron (Channing Tatum) e a história continua com tantas voltas e reviravoltas (os constantes flashbacks e flashforwards nem sempre ajudam) que ele acaba por juntar aos perseguidores dela. Para fugir dele, Mallory apodera-se do carro de Scott (Michael Angarano), um desconhecido que a tinha tentado ajudar e, sabe-se lá porquê, decide não largar o seu carro novo e vai com ela de livre vontade. Mallory acha-o digno de confiança e conta-lhe a sua história enquanto conduz. Só para acrescentar mais nomes ao elenco e chamar a atenção do público surgem em papéis secundários Michael Fassbender, Michael Douglas, Antonio Banderas e Bill Paxton. 




E pronto acaba-se o filme e somos tomados por uma sensação de vazio, perante as altas expectativas que um realizador como Soderbergh saberia corresponder se não estivesse pouco inspirado, ao contrário do que aconteceu com Contágio (2011) e Traffic - Ninguém Sai Ileso (2000), ou mesmo na saga Ocean's Eleven, entre outros filmes.

Gina Carano, na vida real uma conhecida lutadora norte-americana de MMA (Mixed Martial Arts - artes marciais mistas), carrega em si todo o peso do filme graças à adrenalina que confere às cenas de combate corpo a corpo onde está como um peixe na água e deve ter dispensado duplos. Esta mulher fatal terá decerto futuro em filmes de acção e fala-se da sua possível participação no sexto filme da saga Velocidade Furiosa.

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Ferrugem Americana - Philipp Meyer



Graças ao presente livro e à forma brilhante como foi escrito, Philipp Meyer tem sido comparado a grandes escritores clássicos como John Steinbeck. Nascido em 1974, Meyer é considerado pelo The New Yorker como um dos 20 melhores escritores actuais com menos de 40 anos de idade. Para bem de todos nós leitores, Meyer desistiu de uma carreira como paramédico quando em 2005 recebeu uma bolsa de estudos do Centro Michener para Escritores em Austin, Texas. Foi lá que grande parte de Ferrugem Americana (American Rust) foi escrita. Para mais informações sobre este autor consulte o seu site oficial aqui.

Isaac English e Billy Poe são o oposto um do outro, tanto psicologicamente como fisicamente, mas mesmo assim são o o melhor amigo um do outro. Após a morte da mãe e da ida da irmã mais velha para a universidade de Yale, Isaac é forçado a ficar para trás, cuidando do pai que é doente. Poe é uma antiga estrela de futebol americano do liceu que deixa de lado uma promissora carreira no desporto para se deixar ficar na sua pequena cidade na Pensilvânia, onde vive com a mãe numa roulotte. Numa região rodeada por vales a indústria definha e o desemprego abunda.

Um dia Isaac resolve partir, embalado pelo sonho de estudar numa universidade. Preocupado, Poe resolve segui-lo e ambos encetam uma longa jornada a pé. No entanto um acto de extrema violência fá-los tomar caminhos diferentes e põe à prova a sua amizade, trazendo inevitáveis consequências não só para as suas vidas como as dos que os rodeiam. Só a redenção que chega através da amizade e do amor os poderá ajudar.

As frustrações de Isaac e Poe simbolizam as frustrações da juventude americana que abre mão dos seus sonhos por incapacidade de mudança ou conformismo, ou simplesmente porque dos tentáculos gigantes do desemprego os encurralam. É o fim do chamado sonho americano. À volta da cidade quase sem vida em que os dois amigos nasceram, várias fábricas decompõem-se lentamente em montes de ferrugem, corpos onde outrora havia vida em abundância. É aqui que Meyer faz sentir com maior intensidade a sua crítica relativamente à política governamental dos EUA que faz com que se invista tão pouco na indústria nacional.

Em termos de contexto social e económico, Ferrugem Americana pode de facto ser considerado como um digno sucessor de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. O escritor mestre da crítica social que tão bem retratou a desilusão do sonho americano na época da Grande Depressão de 1929, é uma clara influência na escrita de Meyer, que insere a sua crítica nas consequências da crise que se faz sentir desde 2008. Ferrugem Americana tem 416 páginas de leitura agradável, em que se devora rapidamente cada capítulo.

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

Gangster Squad - O Trailer

A Sombra do Corvo - Joel Rose



Co-autor de banda desenhada para adultos, colaborador do New York Times e de vários programas televisivos como Kojak e Miami Vice, fundador e co-editor da revista Between C & D, autor dos romances Kill The Poor e Kill Kill Faster Faster. Joel Rose fez tudo isto antes de publicar em 2007 o romance The Blackest Bird traduzido como A Sombra do Corvo e editado em Portugal pela Gótica, fazendo parte da colecção Cavalo de Tróia.

Podemos dizer que se trata, entre outras coisas, de um romance histórico, visto que Rose desenvolve todo o enredo em conformidade com o ambiente tumultuoso que se vivia numa jovem Nova Iorque iniciando-se em 1841 e terminado alguns anos depois. Tudo começa quando o corpo da bela e jovem Mary Rogers é encontrado sem vida e com indícios de um brutal assassinato. O experiente chefe da polícia de Nova Iorque, Jacob Hays, conhecido por todos como o Velho Hays, encarrega-se do caso. Enquanto este dá o seu melhor no cumprimento do seu dever, a cidade fervilha de gangs de crimininosos incontroláveis que estabelecem leis próprias no bairro de Five Points. 

O Velho Hays penetra no lado obscuro da cidade e dos seus habitantes, tendo de lidar com a corrupção de polícias, políticos e jornalistas que escrevem ao sabor dos escândalos e manipulam a verdade para conseguir vender mais jornais. A investigação conduz Hays até à conhecida figura do escritor e poeta Edgar Allan Poe, um romântico inveterado e sempre no limiar da pobreza em cujos poemas e obras poderão estar pistas para esclarecer a verdade sobre a morte de Mary Rogers. Até que as suspeitas começam a apontar para o próprio Poe... Conseguirá o Velho Hays desenrolar o emaranhado de mentiras naquele que será o caso mais importante da sua carreira e da sua vida?

Joel Rose é excelente no retrato que faz de uma jovem cidade em que o crime andava à solta nas ruas sob todas as formas de violência, com assaltos e crimes hediondos tornados já banais. Há espaço para perseguições, roubos de campas, incêndios e fugas da prisão num livro bem ritmado e dinâmico, dividido em pequenos capítulos que se lêem com interesse e rapidez ao longo de 476 páginas.

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Música do dia

Os Vingadores (The Avengers) - O melhor filme de heróis da Marvel?



O mais recente blockbuster dos estúdios da Marvel já anda a colher boas receitas de bilheteira nos 39 países que estreou antes do seu país de origem, os E.U.A., onde estreia hoje, 4 de Maio. Até agora falam-se em pelo menos 178 milhões de dólares, perto de metade do custo total do filme. Em Portugal mais de 100 mil espectadores já viram Os Vingadores (trailer) desde a sua estreia a 26 de Abril. Esta é a aposta forte da Marvel para "combater" outro grande blockbuster que chegará às salas de cinema em Agosto: O Cavaleiro das Trevas Renasce, de Christopher Nolan. Se bem que pelo meio ainda há a estreia de Prometheus de Ridley Scott, que pode trazer uma boa surpresa.

Os espectadores que não esperaram para ver os créditos finais de Homem de Ferro (John Favreau, 2008) não viram a primeira aparição de Samuel Jackson como Nick Fury, o director da S.H.I.E.L.D., que se referiu pela primeira vez ao projecto The Avengers. Era a primeira pista do que estava para vir.

As aventuras de Os Vingadores começaram em 1963 nos comic books da Marvel pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby. Tal como acontece no filme, na BD os super-heróis mais poderosos juntam-se para combater Loki (o irmão adoptivo de Thor) e os seus aliados e salvar a humanidade da extinção. Quase 50 anos depois, Kevin Feige foi provavelmente o produtor mais atarefado de Hollywood por ter de conciliar as agendas do vasto elenco de estrelas que participa no filme: Robert Downey Jr. (Homem de Ferro), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Chris Evans (Capitão América), Scarlett Johansson (Viúva Negra), Jeremy Renner (Gavião Arqueiro), Mark Ruffalo (Hulk, substituindo Edward Norton), Chris Hemsworth (Thor) e Tom Hiddleston (Loki; vimos recentemente este actor em Cavalo de Guerra de Steven Spielberg. Feita a hercúlea tarefa, ficaram ainda assim de fora os muito ocupados Stanley Tucci, Natalie Portman e Anthony Hopkins. 




Quem também não teve tarefa fácil foi o realizador e argumentista Joss Whedon (o criador de Buffy, Angel, Serenity e Firefly) que teve o desafio de distribuir protagonismos num enredo com vários personagens sonantes. Talvez se esperasse que o protagonismo todo fosse para o Tony Stark/Homem de Ferro de Downey Jr, mas isso foi até foi bem disfarçado, pelo menos até à recta final do filme... Whedon sai com nota positiva do seu desafio e soube tirar partido do inevitável confronto de egos que era óbvio perante a perspectiva de reunir numa sala Hulk, Capitão América, Thor e o Homem de Ferro a discutir quem fazia o quê. O choque de personalidades dos super-heróis é algo que vemos na maior parte do filme até que com o aproximar da batalha final eles lá conseguem trabalhar em equipa. Antes disso podemos esperar algumas "altercações" entre eles. Por exemplo, um colérico Thor descarrega a sua fúria no Homem de Ferro até que o Capitão América chega para acalmar os ânimos. 




Whedon teve também de arranjar espaço para os dois vingadores "suplentes": a Viúva Negra (a única presença feminina num grupo cheio de testosterona) e o Gavião Arqueiro. Por que não criar uma ligação afectiva entre ambos, já que não têm super-poderes? Assim o realizador pensou e assim o fez. (Mas não esperem ver cenas romântica ente os dois) A primeira ganha algum protagonismo quando mostra os golpes que sabe dar e arrasa um bando de criminosos russos no início do filme. O segundo talvez seja a personagem menos consistente, que se limita a lançar flechas sem nunca falhar durante as cenas de combate em que está presente. Afinal desde que Jeremy Renner foi nomeado para o Óscar de Melhor Actor pelo seu desempenho em Estado de Guerra (The Hurt Locker, 2008, de Kathryn Bigelow) toda a gente quer arranjar meio de o "enfiar" num filme seu.




Apesar da BD de Os Vingadores não ter tido tanto sucesso como X-Men e o Homem-Aranha, deixou a sua marca no universo dos heróis da Marvel. De fora deste filme ficaram outros vingadores como Ant-Man, Wasp, Scarlet Witch, Quicksilver, Black Panther, entre outros. Se estamos perante o melhor filme dos heróis Marvel? Ainda não, mas não está longe disso.

Como Loki, Hiddleston fez um bom trabalho para ser o motivo da fúria de tantos vingadores. Os seus aliados alienígenas estão bem concebidos e não vai ser fácil pô-los a mexer do nosso planeta. Os confrontos entre eles e os vingadores são cenas de acção interessantes e que proporcionam bom entretenimento.




O Tony Stark/Homem de Ferro de Downey Jr. mantém o seu contributo para as partes bem-humoradas do filme, ainda que estas não se fiquem somente por esta personagem. O humor ao longo do filme é em si uma parte importante que suaviza a seriedade da situação em que a acção decorre. Já o Nick Fury de Samuel L. Jackson tem um poder de decisão tão amplo que corresponde noutros filmes ao de um autêntico presidente dos EUA. Pelo menos ficamos a saber o que é a S.H.I.E.L.D. e que poderes detém. Somados todos os ingredientes temos entretenimento garantido durante aproximadamente 142 minutos dentro de três géneros fílmicos: acção, aventura e ficção científica.



Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Apocalipse



Como um navio em perigo
enfrentando a fúria do oceano,
luto para me manter à tona
perante as tempestades
que assolam a minha vida.

Já não sei quem sou
já nada sinto
já ninguém amo.
Estou oca por dentro
em mim não há mais
nenhum sentimento
a não ser desencanto.

O sol deixou de nascer
e reina o vento turbulento
que tudo destrói.
Já pouco resta de vida
neste mundo que preferiu o ódio
e matou o amor.

Esvai-se em mim a esperança morta,
como sangue goteja.
A flor da vida murchou
no meu coração
quando ainda mal tinha desabrochado.
Sou feita de anos perdidos,
de sonhos desfeitos,
de prantos e gemidos.

As aves partiram
para não mais voltar
e a Primavera veio
cheia de cinza.
Ardeu a alegria e a fantasia.
Chove agora o céu que chora.

Onde estão os bons sentimentos
que diferenciam os homens
dos animais perigosos da natureza?
Onde está a verde esperança
reflectida no brilho
do olhar de uma criança?
Onde e quando se perdeu
a humanidade?

Foi para longe a felicidade
pouco há a fazer agora.
A minha alma rasteja
entre as sombras e chora,
com sede de luz...
Tanta sede de luz me devora!

Não espero que nenhuma mão bondosa
se estenda e me resgate das trevas.
Resta em mim uma minúscula semente
plantada onde antes ficava o coração
quiçá uma frondosa árvore nasça
e mande embora para sempre a escuridão...